Aprendendo a patinar? Caia mais!

By Edu, 25 de agosto de 2010

Tive a chance de conhecer Dallas na semana passada. Com o calor na casa dos 40ºC almoçar perto de uma pista de gelo faz bastante sentido.





Enquanto almoçava, me chamou a atenção um garotinho de uns 7 a 10 anos, imagino que tenha sido a primeira vez que ele pisou numa pista de gelo. Uma adolescente que aparentemente sabia como patinar tentava ajudá-lo. Depois de umas duas ou três voltas agarrado ao corrimão cheguei a uma simples conclusão:

Não é hoje que ele vai aprender a patinar.

É frustrante mas é a realidade. Por incrível que pareça algo muito similar acontece toda vez que nós, adultos, somos expostos à possibilidade de iniciar algo novo. Muitos nem tentam, da mesma forma como muitas crianças têm medo até de colocar a rígida bota.

Dos que arriscam tentar:

    Alguns morrem de medo de cair e se machucar. Por isso se agarram às grades. O problema é que a pior forma para aprender a patinar é se agarrar a algo fixo. É como tentar aprender a dirigir um carro sentado no sofá, não vai dar certo. Os que aprendem rápido não só não têm medo de cair como também sabem que cair faz parte do processo. Você pode passar a vida inteira numa pista de gelo agarrado ao corrimão. Não cair não é o que faz de você um grande patinador, mesmo que você tenha todo o tempo e recursos disponíveis. Muito pelo contrário, aliás.

    Outros tentam adaptar o que sabem à uma realidade completamente nova: Na pista de gelo, não faz muita diferença se você é o melhor músico, o melhor ciclista, o maior gênio que o planeta já conheceu. Pode até ajudar em alguns detalhes mínimos, mas apenas isso não vai fazer você patinar. No caso do garotinho, percebi que o grande problema é que ele tentava andar como na rua, um passo após o outro, enquanto que para patinar você precisa de movimentos completamente diferentes e muito menos intuitivos.

    Outros têm a falsa sensação de progresso por estar ao lado de um expert: No caso do garotinho, ter a adolescente do lado dele o tempo todo provavelmente postergou a chance de ele realmente aprender. Me fez lembrar do primeiro livro de marketing que comprei na vida: “Alex Periscinoto – Mais vale o que se aprende do que o que te ensinam”. Você pode ter uma pessoa contratada 24 horas para que você não caia. Você provavelmente não vai cair mas também corre o risco de nunca aprender a patinar. Mesmo porque se você aprender seu assistente perde o emprego.

    O restante são os que sabem patinar ou que estão levando vários tombos no meio da pista: Os incluo no mesmo grupo já que fazem parte de um seleto grupo de pessoas que em algum momento venceram o medo de cair. É deste grupo que busco sempre fazer parte. Não é o que a intuição diz.

    Por isso criei uma lista para lembrar antes de entrar em qualquer novo “ringue”:

    1. Observar, observar, observar: Quem está fazendo o quê. Quem está de fora, anunciando ser o maior patinador do mundo? Quem quer patinar mas não larga do corrimão? Quem está levando tombos no meio da pista? Por último dê uma olhada em quem patina graciosamente. Foque menos em quem é esta pessoa, como ela se veste ou quanto dinheiro ela tem e mais nas ações, nos movimentos que ela faz. Esta é a única coisa que pode te ajudar caso você respire fundo e decida entrar no “ringue”. Se esta pessoa não existir parece que você está com sorte, essa pessoa pode ser você.

    2. Decida, tome a decisão de entrar ou não no ringue: Não vejo problema em dizer “patinação não é para mim, ao invés disso vou aprender a andar de bicicleta”. O grande problema é se você decide não patinar, decide não andar de bicicleta, decide não fazer X, não fazer Y e também não fazer Z… e assim viver em função das desculpas para não começar.

    3. Pista nova, regras novas: Deve ser natural que nós, seres-humanos, primeiro tentemos adaptar velhas regras a novos desafios. Um bom exemplo é a cada nova ferramenta em mídia social se perguntar: “Como vamos usar o ______ (preencha com: Twitter, Facebook… alternativas não faltam) para promover nossas velhas ações de publicidade e marketing?”. Ao invés disso você poderia antes se perguntar: Como funciona o _____? Será que realmente vale a pena abraçarmos o esta ferramenta?”, “Como podemos usar mídias sociais eficazmente para melhorar a interação com nossos consumidores?”, “Como podemos usar as mídias sociais para criar oportunidades de negócio antes inimagináveis?”. Percebeu a diferença?

    4. Elimine o corrimão, mesmo que ele exista: No caso da patinação é fácil. O corrimão está lá, basta você dizer “Ou eu aprendo a patinar sem encostar no corrimão ou eu nem começo”. Na vida real é mais difícil identificar estes subterfúgios que naturalmente encontramos para escapar do que é importante. O corrimão é a forma mais segura para que alguém nunca aprenda a patinar.

    5. Cuidado com experts: Eles estão lá para fazer com que você aprenda a patinar ou será que querem apenas garantir que você nunca se arrisque nem caia? Será que eles nada mais são que um corrimão sobre patins que te protegem ao mesmo tempo que previnem seu aprendizado? Não seria melhor encontrar alguém mais parecido com um “técnico” que te diga que não tem jeito, cedo ou tarde você vai cair? Alguém que te dê dicas de como evitar o tombo, quais as melhores formas de cair e que estejam preocupados acima de tudo em fazer com que você aprenda a patinar o mais rápido possível?

    6. Entre pronto para cair: Caia muito. Tente descobrir o mais rápido possível se patinar é tão legal a ponto de compensar qualquer tombo. Aprenda a cair e a se divertir em cada tombo, por mais que a sensação seja ruim. Não deixe que os tombos te façam esquecer do objetivo principal.

    7. Se patinar náo é a sua praia, saia do ringue o mais rápido possível, de cabeça erguida: Muita gente que ficou de fora assistindo vai rir, fazer piada, dizer que seu fim está próximo, comemorar (vide Google Wave). É mais do que normal. O problema é que eles não contam com a mesma coragem, experiência e, principalmente, não fazem idéia do significado de um tombo. Nem o quanto você aprendeu com cada um deles. Essa lição só aprende quem tenta.

    8. Espero que faça sentido.

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