Do “Filma Eu” ao “Cala Boca”

By Edu, 18 de junho de 2010

A última Copa que assisti no Brasil foi a de 2002, ano em que fomos campeões. Em 2006 acompanhei a Copa em alemão e agora os poucos jogos que tenho visto são narrados em inglês ou espanhol. Mesmo assim acabei não ficando imune ao “Cala Boca Galvão”, movimento e piada interna que ganharam força nesta semana no Twitter. Independentemente das virtudes e defeitos da Globo e seus comentaristas, na minha opinião o mais interessante deste fenômeno é a (sutil para muitos) enorme mudança que vem acontecendo nesta indústria já há alguns anos, se tornando apenas mais gritante neste momento.

Há 8 anos, se você quisesse chamar a atenção, levaria uma placa ao estádio pedindo “Filma Eu Galvão”. Se desse sorte, ganharia exposição. O poder estava concentrado nas mãos das poucas redes. Se você quisesse lançar sua banda, por exemplo, tentaria encontrar uma grande gravadora. Se desse sorte ou conhecesse alguém, conseguiria uma participação em um show de auditório ou seria escolhido para uma trilha de novela. Pronto, sucesso (quase) garantido. Era o “complexo militar da TV” em ação, como bem descrito por Seth Godin.

A transformação que vivemos hoje é algo incrível. Com algumas centenas de reais para um computador e uma conexão à internet qualquer um passa a ter a incrivel oportunidade de expressar suas ideias, apresentar seus trabalhos, fazer conexões antes impensáveis. Novas dimensões que eram restritas a poucos. Em algumas horas (minutos?) uma banda pode produzir e disponibilizar um video online. Você pode compartilhar o que pensa, se for relevante encontrará sua audiência. Sua empresa pode “cultivar” clientes reais ao invés de pagar para interromper milhões de pessoas que de qualquer forma não se importariam com o que você faz ou diz.

Uma das mudanças mais interessantes é que a cada dia que passa, audiências passivas passam a ser produtores e replicadores de conteúdo. A audiência passa a ser uma invisível mas potente concorrência para as grandes redes. Se há oito anos alguém aparecesse num estádio com uma placa “Cala Boca Galvão”, talvez se tornasse uma piada interna, restrita aos poucos que estivessem no estádio. Nenhum cinegrafista seria louco de filmar estes dizeres em uma transmissão ao vivo. Mesmo que o fizesse, nenhum diretor de edição autorizaria a exibição. Talvez o rapaz da placa fosse até taxado de louco. De uma forma ou de outra, a ação acabaria passando “em branco”.

Hoje estes filtros já não existem mais. Ninguém tem mais o poder de censurar ou bloquear a informação. Nem mesmo governos totalitários mundo afora estão conseguindo mais fazer isso. O conteúdo passa a ser filtrado por sua relevância intrínseca. É algo fenomenal, é a vitória da transparência, a democratização da informação. Resta saber como nossa sociedade aproveitará estas oportunidades.

As transformações ocorridas do ”Filma Eu” ao “Cala Boca” são apenas um esboço das gigantescas mudanças que iremos experimentar em breve, não tenho dúvidas que acontecerão com velocidade cada vez maior. Só espero que no futuro tenhamos um pouco mais de carinho com nossa bela língua portuguesa.



Em tempo: Tirei a foto acima há algumas semanas, alguma sugestão para o nome do pássaro?

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