Florianópolis, não se inspire em São Paulo

By Edu, 16 de novembro de 2009

Tive a oportunidade de colaborar em um trabalho acadêmico desenvolvido há cerca de 2 anos sobre o que aconteceu com São Paulo após o rodízio ser implementado. Neste estudo, a metodologia “Systems Dynamics” (dinâmica de sistemas) foi empregada para produzir um modelo que represente, com mais variáveis, o que realmente ocorre após a implementação do rodízio por uma cidade. São variáveis que vão muito além de simplesmente comparar quantidade de veículos entrantes, como qualidade do transporte público, densidade do tráfego, dados demográficos, entre outros.

Mais importante do que números é observar como o modelo reage à introdução de ações pontuais (neste caso, políticas públicas) neste complexo sistema como um todo. Um resultado simplificado pode ser visto no gráfico abaixo, onde a linha rosa representa o número total de carros e a linha azul representa a densidade do tráfego:

Neste caso, aplicamos o “rodízio” no mês 120. A consequência imediata é uma queda abrupta na densidade do tráfego, o que faz a população ter a clara sensação de que a iniciativa é realmente eficaz. o problema é que a medida gera algumas consequências indesejadas (unintended consequences), entre elas:

  • Maior motivação para as pessoas saírem de casa com seus veículos: É o mesmo que ocorre nos EUA quando novas faixas de tráfego são adicionadas à grandes avenidas. A sensação de que o trânsito melhorou dá mais razões para que as pessoas façam mais viagens não obrigatórias nos dias em que podem utilizar seus veículos, o que traz de volta o problema após um curto período.
  • O rodízio não reduz viagens na mesma proporção que reduz veículos autorizados a circular: O supermercado que eu fazia todas as segundas-feiras, vou continuar fazendo, talvez na terça ou na quarta.
  • Aumento ainda maior da frota de veículos: Pergunte a uma família paulistana de classe média qual é a solução encontrada para o rodízio. Garanto que a maioria das respostas não envolve transporte público. Muitas dirão “carro do rodízio”, que nada mais é do que um carro extra, comprado para burlar (legalmente) o sistema. Além disso, o veículo “estepe” é normalmente mais velho e mais poluidor. Por ter mais um veículo, a família também tem menos recursos para atualizar os carros principais, o que também acaba promovendo impactos na economia local e no meio ambiente. Mais carros estacionados, imagine só, menos vagas, mais trânsito ainda.O grande problema vem a médio e longo prazo: mais carros, menos espaços para deslocamento e estacionamento e como consequência, piora no trânsito.

O estudo indica que em menos de uma década, no caso de São Paulo, a cidade atinge os mesmos patamares de trânsito que tinha quando o sistema foi implementado (veja o que aconteceu na prática aqui). E dessa vez, o passo já foi dado, você já tem 1/5 da frota proibidos de circular de segunda a sexta. É uma medida interessante para políticos, que tem ciclos de vida mais curtos (eleições a cada 4 anos) mas que no longo prazo é terrível para os moradores. Pergunte a quem mora em São Paulo hoje, 13 anos após a implantação da primeira versão do rodízio em 1996. As consequências vão de encontro ao motivo inicial, ao invés de reduzir o número de carros, ao longo do tempo se aumenta ainda mais não só o número de carros, como também o número de carros per capita. Este fator complica ainda mais o problema e faz com que o rodízio seja uma medida quase impossível de ser extinta. É quase um caminho sem volta.

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