Vencendo a resistência

By Edu, 20 de janeiro de 2010

Este é o terceiro de cinco textos dedicados ao novo livro de Seth Godin, Linchpin.
Segunda-Feira: Remarkable People
Ontem: Se tornando um Linchpin
Amanhã: O poder da cultura de presentear


 

Inicio este post com a tradução de uma frase do poeta Bruce Ario, citada em Linchpin (p. 101)


 

Criatividade é um instinto a ser produzido.

Artistas de verdade entregam*

Um dos argumentos utilizados por Seth é que se um Linchpin é um artista, e artistas de verdade entregam. Estes artistas geralmente têm um deadline definido, seja um novo disco, um novo quadro, seja um programa de TV ao vivo. Seth utiliza como exemplo o “Saturday Night Live” mas pense nos artistas da TV brasileira que contam com um programa ao vivo. Não importa o que aconteça, naquele determinado horário eles estarão lá, ao vivo, nem que tenham que improvisar. E isso é o que atrapalha muita gente. Em se buscando a perfeição, se esquece que é mais importante uma obra semi-acabada entregue no deadline do que a perfeição que nunca é finalizada, nunca é entregue.

Por coincidência, a Wired deste mês traz um artigo sobre a importância de falhar (Why losing big can be a winning strategy). Falhar é mais importante que não fazer, e o que aprendemos é o contrário disso: Você deve ser bem-sucedido, você deve ser perfeito, imune a falhas. Pensando assim é fácil evitar correr riscos, evitar mudar radicalmente o jogo. Você já parou para pensar que as pessoas de mais sucesso talvez sejam as pessoas que tenham arriscado mais, até mesmo falhado mais? O exemplo que mais gosto é o Newton. Não se fala muito sobre este insucesso da Apple, mas sim na revolução iniciada pela empresa recentemente com o lançamento do I-Phone.

Voltando à Wired, entre os exemplos da matéria, o que mais me chamou a atenção foi o case da empresa 3D Realms (Learn to Let Go: How Success Killed Duke Nukem). Talvez você não conheça a empresa, mas seu fundador revolucionou a indústria de jogos com o lançamento de Wolfenstein 3D em 1992 e Duke Nukem 3D em 1994. Com o sucesso dos jogos a empresa fez milhões de dólares em alguns anos. Em 1997, com dinheiro em caixa, iniciaram o projeto Duke Nukem Forever, algo que envisionaram ser a nova revolução no mercado de games. Com uma enorme base de fãs, esta seria uma aposta praticamente certa.

O problema: 12 anos depois a empresa não foi capaz de entregar sua grande criação. Caíram no “Design Creep”, o projeto “rastejou”. Chegaram a apresentar previews do jogo em algumas ocasiões, mas o fato de não terem fixado uma data final para entrega, isto nunca aconteceu. Quando uma nova tecnologia era lançada, redesenhavam completamente o jogo, na busca da perfeição, do “masterpiece“. A empresa fechou as portas oficialmente em 2009.

E isso é o que Seth pede para que não aconteça. Parece uma ideia simples, mas atire a primeira pedra quem nunca participou de uma atividade ou projeto que tenha sido deixado para última hora e que a entrega tenha sido um desafio ou mesmo impossível, tendo sido obrigada a ser prorrogada. Sou brasileiro, entendo bem como são as coisas. E aparentemente isso não é exclusividade nossa.

É o cérebro de lagarto que temos

Photo used under Creative Commons from: ahans / CC BY-NC-SA 3.0


 

Em poucas palavras o “lizard brain” é um resquício da evolução dos seres humanos. É o segundo numa lista de quatro sistemas, sendo que os primeiros são os menos civilizados mas ao mesmo tempo os mais potentes. Depois das funções necessárias para a sobrevivência (respiração, etc.) é o sistema responsável por sentimentos muitas vezes inexplicáveis, como a vingança, a raiva, o sexo, o medo. Esta é a parte do cérebro mais difícil de “domar”. É a parte do cérebro responsável pela resistência, que teme mudanças, que busca o conforto.

A resistência é a voz em seu cérebro te dizendo para você usar bullets em seu Powerpoint porque é exatamente isso que seu chefe gosta, é a voz que te diz para deixar idéias controversas fora de seu trabalho de escola, porque seu professor não vai gostar. A resistência força você a se submeter, se encaixar. (p.117)

E aqui alguns outros bons exemplos de sintomas do “lizard” em ação, retirados de uma lista ainda maior: (p. 127-128)

Não entregue a tempo. Tarde é o primeiro passo para o nunca

Deixe para depois, dizendo que você precisa de tempo para aperfeiçoar

Use desculpas como falta de dinheiro

Inicie comitês ao invés de tomar ações

Faça parte de comitês ao inves de liderar

Não faça perguntas

Faça perguntas demais

Deixe para amanhã

Inicie uma busca infinita pela próxima grande ideia, abandonando a (velha) ideia de ontem.

“Vão rir de mim”

Este é um excelente exemplo pessoal do lagarto em ação. Antes de iniciar o IdeiasdeFora.com, debati bastante comigo mesmo: “Mas Edu, e sua reputação? O que as pessoas que você conhece vão pensar? E seus amigos da engenharia, vão achar o quê? Você vai acabar escrevendo alguma besteira, vão rir de você, vai ser a maior vergonha”.

E isso foi o suficiente para “enrolar” por alguns meses e até mesmo iniciar o blog de forma anônima. Colocar minha foto, meu nome neste blog foi mais difícil que você imagina. Era o “lizard” em ação, aquela voz que te diz: nâo faça, você vai acabar se dando mal. Venci essa barreira e hoje me pergunto porque hesitei tanto em fazê-lo. Meus medos eram muito, mas muito maiores do que a realidade. Hoje me preocupo mais em não fazer, não entregar do que falhar. Falhar é parte do processo e qualquer falha será irrelevante perto do aprendizado que tive nestes últimos meses.

Esta é a mensagem, vença a resistência, entregue. Medo de falhar não pode ser desculpa para não tentar, concorda?

*Em português o verbo entregar não é tão forte como to ship. Pode até ser mal-interpretado, como “entregar o jogo”. O sentido aqui é finalizar e entregar um trabalho, “passar a régua e fechar a conta” e se focar no próximo desafio.
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